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Entre o amor e o caos: Os desafios reais do terapeuta de casal

Autoras: 

Adriana Trindade Ogawa 

Juliana Oliveira Felippin 

      A terapia de casal começou a ser citada após a década de 1970. Pois, anteriormente as práticas clínicas eram realizadas somente de forma individual ou familiar. Nos estudos da referida época um dos fatores que dificultavam sua utilização era a negação social dos problemas conjugais.

      Segundo Andolfi e Mascellani (2023), aos casais utilizava-se o ditado “roupa suja se lava em casa”, ou seja, os casais não falavam com outras pessoas sobre suas dificuldades. Somente quando essas chegavam a uma proporção mais complexa, optavam em contatar um membro da família para pedir conselhos, e ou autoridades religiosas. De acordo com os estudos da época os registros que são apresentados contam que em grande parte desses casos os casais permaneciam nos relacionamentos, para assim preservar a família e a formação dos filhos.

      A partir da propagação da Lei do Divórcio, em 1977, o cenário começou a apresentar mudanças no pensamento sobre as dificuldades dentro dos relacionamentos. E assim, os casais passaram a buscar ajuda mais especializada de forma mais livre. Porém, a terapia de casal continua lutando para mostrar sua expressividade como prática preventiva, reconhecendo o casal como núcleo estruturante da família.

      Ao mencionar o contexto das relações amorosas por si já trazem expectativas, a promessa de pertencimento, proteção, harmonia e segurança. Mas sabemos que nesse mesmo contexto das relações amorosas que emergem as maiores fragilidades humanas. No atendimento de casal, temas como família de origem, sexualidade, infidelidade e conflitos financeiros não são demandas pontuais e nem se restringem à queixa trazida, muitas vezes são temas como esses que impulsionam ao casal a buscar uma terapia, para assim conseguirem externalizar outros conflitos. Para Camaratta (2016), elas são expressões de padrões relacionais profundos e, muitas vezes, transgeracionais. Trabalhar na clínica de casal exige mais do que técnica. É necessário escuta ativa e compassiva, interesse genuíno, presença afetiva, e um olhar ampliado para a história de cada indivíduo. Conforme relatam Andolfi e Mascellani (2023) que, frequentemente, as pessoas não se conectam a quem desejam racionalmente, mas a quem mobiliza conteúdos profundos e não resolvidos, os quais estão ligados à família de origem.

      Por isso, é essencial que o terapeuta considere as forças transgeracionais que influenciam os vínculos afetivos. Camaratta (2016), em sua obra “O Casal Diante do Espelho”, afirma que o terapeuta atua como um condutor de um novo olhar, sendo como um espelho que reflete e ressignifica a história do casal. Olhar para a família de origem não é apenas voltar ao passado, mas relembrar contextos afetivos que colaboraram para a construção das defesas e das formas de amar. De acordo com “O Casal em Crise”, Andolfi, Angelo e Saccu (1995), é primordial que o casal se separe emocionalmente do sistema de origem. Esse distanciamento simbólico permite que o casal reconheça a história dos pais como distinta da sua, e que construa sua própria trajetória conjugal.

      A sexualidade é a ilustração da intimidade, vai muito além do envolvimento físico, envolve vínculo, segurança afetiva e emocional, comunicação, ou seja, ela é construída diariamente na convivência do casal, para Andolfi e Mascellani (2023). O sexo na relação serve como um guia que vai nos levando para dentro da relação e evidenciando como está o relacionamento, funcionando como um termômetro relacional: se está gelado, sem graça, algo está precisando de um cuidado maior; se está quente, vibrante, a conexão está saudável, satisfatória, como afirma Ferreira-Santos (2007). A sexualidade, portanto, vai além muito além do sexo. Ela esta presente no cuidado diário, na rotina, na troca de carinhos, na comunicação, no olhar, nos gestos. Mesmo em casais idosos, com pouca ou nenhuma atividade sexual, a sexualidade pode estar presente nas pequenas ações cotidianas: conexão, uma comida preparada com carinho, um passeio compartilhado, um abraço. Para Ferreira-Santos (2007), a sexualidade é a base estrutural da relação, como uma casa que precisa de manutenção constante, feita de tijolos cotidianos.

      Perel (2018), destaca no âmbito da infidelidade que ela não se restringe apenas ao aspecto físico. Nesse contexto ela evidencia o distanciamento emocional, a falta de comunicação, a falta de admiração e a quebra de combinados. Todos esses somados ao silêncio prolongado e a falta de conexão, internamente vão surgindo as provocações, nesse sentido, a infidelidade pode tanto destruir quanto revelar o que estava por dentro dessa relação. Portanto, papel do terapeuta não é julgar a traição, muito menos ser juiz da relação, mas compreendê-la dentro do sistema relacional daquele casal. O que essa infidelidade quer trazer à tona? O que não estava sendo verbalizado? O terapeuta de casal precisa ocupar o lugar de quem escuta sem tomar partido dentro do relacionamento, importante é estar interessado não em apontar culpados, mas em ampliar a consciência do casal sobre sua própria história.

      Outro fator relevante na dinâmica conjugal é o dinheiro, servindo tanto como fonte de estresse ou de ajustamento. Logo, compreender a complexidade das interações financeiras no contexto conjugal é essencial para processos terapêuticos, como afirma Xavier (2020, p. 144). Para tal, devem-se considerar aspectos como a influência das famílias de origem de ambos os cônjuges sobre o seu manejo, as exigências da fase do ciclo vital, seus simbolismos, bem como fatores socioculturais, religiosos, modos de coabitação, questões de gênero e de poder, que podem coexistir no processo de gerenciamento das finanças do casal.  Neste contexto, pode-se vivenciar um espaço de diálogo ou de silêncio, resultando em experiências conjugais funcionais ou disfuncionais, explícitas ou implícitas. Segundo Cenci (2017), o dinheiro “…configura-se como um componente potencialmente significativo, está associado com as dimensões de afeto e compromisso conjugal e pode ser preditor de divórcio. Existe uma maior propensão de conflito, evidenciados pela revisão, no início do casamento e no período que antecede a aposentadoria.”

      Concluindo, o trabalho do terapeuta de casal se dá exatamente nesse campo fértil e desafiador entre o amor e o caos, onde as forças inconscientes, os padrões herdados, comportamentos adquiridos e os acordos silenciosos atuam. A prática clínica evidencia que relacionamento com a família de origem, sexualidade, infidelidade e dinheiro não são apenas temas recorrentes, mas temas centrais na sustentação — ou desestabilização — dos vínculos amorosos. Esses fatores, frequentemente entrelaçados – por vezes, emaranhados – funcionam como visualização dos enredos familiares e das tensões individuais que se atualizam na relação conjugal. Por isso, o psicoterapeuta é convocado a um exercício constante de escuta sensível, neutralidade ativa e leitura do todo, promovendo espaços de elaboração onde o casal possa se ver, se descrever e, eventualmente, se reconstruir.

       Ao reconhecer tais dimensões como estruturantes e inevitáveis, reafirma-se a relevância da terapia de casal não apenas como intervenção em tempos de crise, mas como cuidado essencial à saúde dos vínculos e à construção de um amor consciente, pautado na realidade daquele casal, considerando todos os fatores neste artigo descritos.

Referências

ANDOLFI, Maurizio; ANGELO, Cláudio; SACCU, Carmine. O casal em crise. 3. ed. São Paulo: Summus, 1995.

ANDOLFI, Maurizio; MASCELLANI, Anna. Intimidade de casal & tramas familiares. Belo Horizonte: Artesã, 2023.

BERTONCELLO, Daniela; CUNHA, Analuíza; MAZER, Thelma Zugman (Org.). Infidelidade conjugal e processos de apego. São Paulo: Artesã, 2020.

CAMARATTA, Iara. O casal diante do espelho: psicoterapia de casal, teoria e técnica. 3. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2016.

CENCI, Cláudia Mara Bosetto et al. Dinheiro e conjugalidade: uma revisão sistemática da literatura. Temas psicol.,  Ribeirão Preto,  v. 25, n. 1, p. 385-399,  mar.  2017.   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-389X2017000100020&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  10  jun.  2025.

FERREIRA-SANTOS, Eduardo. Casamento: missão quase impossível. São Paulo: Claridade, 2007.

PEREL, Esther. Casos e casos: repensando a infidelidade. Tradução de Débora Landsberg. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018.

Conheça as autoras:

Adriana Trindade Ogawa – Psicóloga Clínica (CRP 18/915), com atuação em sistemas humanos desde 2006. Especialista em Terapia Sistêmica Individual, Casal e Família, e em Gestão de Pessoas. Vice-presidente da ATFMT (2022/25), membro do CDC da Abratef, idealizadora da Relicário Psicologia, do projeto Coisas de Casal e coautora de baralhos terapêuticos.

Juliana Oliveira Felippin – Psicóloga (CRP 18/474), com atuação desde 2001 na clínica, empresas e educação. Especialista em Terapia Sistêmica e Psicoterapeuta de indivíduos, casais e famílias. Formação em Dinâmica de Grupos, com sólida experiência no desenvolvimento de pessoas e lideranças. Presidente da ATFMT (2022/25), membro do CDC da Abratef, idealizadora do projeto Coisas de Casal e coautora de baralhos terapêuticos e do livro O Self do Terapeuta.

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